
Categoria: Artigos
Data: 03/04/2025
"…prega a palavra, insta, quer seja oportuno, quer não, corrige, repreende, exorta com toda a longanimidade e doutrina. Pois haverá tempo em que não suportarão a sã doutrina; pelo contrário, cercar-se-ão de mestres segundo as suas próprias cobiças, como que sentindo 1coceira nos ouvidos; e se recusarão a dar ouvidos à verdade, entregando-se às fábulas.” (2 Timóteo 4.2-4)
Como pastor reformado vejo com muita preocupação algumas idéias e mensagens que estão sendo pregadas e divulgadas em algumas igrejas com conteúdo bíblico teológico sofrível, onde não há fundamento algum nas Escrituras que apoiam tais idéias. Digo isso por uma simples razão. Recentemente, chegou em minhas mãos um artigo escrito por um ministro cristão (que se diz reformado) em que o mesmo afirma, com veemência, que “Deus é um Deus de coisas novas, de constante movimento, de constante mudança”. Ao ler isso, fiquei espantado. Dizer que Deus é um ser que está mudando é uma afirmação, no mínimo, irracional, para não dizer herética. Digo isso pelo fato de que se olharmos para as Sagradas Escrituras - pois é ela que pode nos dizer quem verdadeiramente é Deus, pelo fato de que foi o próprio Deus que se revelou de maneira especial - temos o seguinte: “Toda boa dádiva e todo dom perfeito são lá do alto, descendo do Pai das luzes, em quem não pode existir variação ou sombra de mudança.” (Tiago 1.17). Portanto, temos aqui, fundamentado pela própria Bíblia, que Deus é um Ser imutável.
Ainda sobre a imutabilidade de Deus, a Confissão de Fé de Westmister, que é um dos símbolos da fé reformada, em seu Capítulo 2, ítem 1, descreve o Ser de Deus da seguinte maneira:
"Há um só Deus vivo e verdadeiro, o qual é infinito em seu ser e perfeições. Ele é um espírito puríssimo, invisível, sem corpo, membros ou paixões; é imutável, imenso, eterno, incompreensível, - onipotente, onisciente, santíssimo, completamente livre e absoluto, fazendo tudo para a sua própria glória e segundo o conselho da sua própria vontade, que é reta e imutável. É cheio de amor, é gracioso, misericordioso, longânimo, muito bondoso e verdadeiro remunerador dos que o buscam e, contudo, justíssimo e terrível em seus juízos, pois odeia todo o pecado; de modo algum terá por inocente o culpado.”
Veja, temos aqui duas afirmações sobre a imutabilidade de Deus: a) que Deus é imutável em seu Ser e, b) que Deus é imutável em Sua vontade (decretos estabelecidos na eternidade). Dessa forma, a imutabilidade de Deus é comprovada por aquilo que o próprio Deus diz em sua Palavra, que Ele é imutável. Sobre isso, segundo Berkhof, "Deus é para sempre o mesmo, e por isso isento de toda e qualquer mudança em seu ser, em suas perfeições, em seus propósitos e em suas promessas”. Diante de tal afirmação, temos o Salmo 102.25-27, onde o salmista inspirado pelo Espírito Santo escreve o seguinte: "Em tempos remotos, lançaste os fundamentos da terra; e os céus são obra das tuas mãos. Eles perecerão, mas tu permaneces; todos eles envelhecerão como uma veste, como roupa os mudarás, e serão mudados. Tu, porém, és sempre o mesmo, e os teus anos jamais terão fim."
Entretanto, devemos considerar algumas passagens da Bíblia que dão uma falsa idéia da possibilidade de Deus mudar. A mais clássica está em Gênesis 6.6, que narra a corrupção do homem em razão do pecado juntamente com o anúncio do dilúvio como punição divina contra a maldade da humanidade. Essa e outras passagens citam palavras como “arrepender” dando a entender como uma mudança de intenção. Porém, a mesma Bíblia mostra que o Ser de Deus é incompreensível ao pensamento do homem. Não podemos discernir os pensamento de Deus. nem tão pouco compreendê-lo totalmente. Por essa razão o próprio Deus em Sua Palavra traz a idéia por meio de modos e exemplos corriqueiros ao homem - antropomorfismo - ,fazendo-se compreensível naquilo que o homem precise conhecer acerca do seu Criador. Como afirma Berkhof, “quando a Bíblia fala dele como se arrependendo e mudando de intenção evidentemente é só uma maneira humana de falar. Na realidade, a mudança não é em Deus, mas no homem e nas relações do homem.”
Ainda sobre a imutabilidade de Deus, temos pelo menos três pontos a considerar:
I – Deus é imutável em Seus decretos.
Os decretos são as resoluções que o Senhor Deus toma a fim de que sejam cumpridas ou realizadas na história do mundo. Conforme nos lembra a Palavra de Deus em Jó 23: 13-14: “Mas ele é ele! Quem poderá fazer-lhe oposição? Ele faz o que quer. Executa o seu decreto contra mim, e tem muitos outros planos semelhantes”. E logo depois de ouvir o longo discurso de Deus, sobre Seu poder e Sua grandeza, Jó responde: “Sei que podes fazer todas as coisas; nenhum de seus planos pode ser frustrado”. (Jó 42:2).
Deus é absolutamente imutável para ter seus planos atrapalhados por quem quer que seja. O profeta Isaias apresenta-nos a visão de um Deus soberano: “O SENHOR dos Exércitos jurou: Certamente como planejei, assim acontecerá, e como pensei, assim será. Pois esse é o propósito do SENHOR dos Exércitos: quem pode impedi-lo? Sua mão está estendida; quem pode fazê-la recuar?” (Is 14:24,27).
II – Deus é imutável em Suas promessas.
Ele não muda de opinião em suas promessas. Paulo demonstra isto nas suas últimas palavras, que nos deixou através da epístola dirigida a Timóteo: “Esta palavra é digna de confiança: Se morremos com ele, com ele também viveremos;
“se perseveramos, com ele também reinaremos. Se o negamos, ele também nos negará; se somos infiéis, ele permanece fiel, pois não pode negar-se a si mesmo”. 2 Tm 2:11-13.
A fidelidade de Deus, não deve ser entendida como sendo fidelidade aos homens, mas a si próprio. Deus zela por Sua própria glória.
III – Deus é imutável em Sua misericórdia.
Porque Deus não muda é que permanecemos vivos, mas sem a punição que nossos pecados merecem. Confira as palavras do profeta Malaquias 6.6: “De fato, eu, o SENHOR, não mudo. Por isso vocês, desdentes de Jacó, não foram destruídos”. Também são fortes e poderosas no conselho a Palavra de Deus em Isaias 54:10: “Embora os montes sejam sacudidos e as colinas sejam removidas, ainda assim a minha fidelidade para com você não será abalada, nem será removida a minha aliança de paz, diz o SENHOR, que tem compaixão de você”.
Temos que aprender a ver que o fundamento de nosso conforto, da nossa esperança, do nosso encorajamento e da nossa força está na imutabilidade de Deus. Temos que aprender que dependemos de Deus.
Aplicações Práticas
Agora, tente pensar comigo sobre, hipoteticamente é claro, na possibilidade de Deus mudar ou estar em constante mudança. Se isso fosse possível será que: Poderíamos confiar em Deus? Confiar naquilo que Ele diz e promete em Sua Palavra? Poderíamos ter uma vívida esperança na Sua misericórdia e na vida eterna? Na Sua providência e sustentação da criação? Na Sua justiça? Na Sua absoluta perfeição? Onde estaria a verdade?
Observemos que cada uma dessas questões estão ligadas à imutabilidade de Deus. Se Deus não fosse imutável, estaríamos, diante de tudo isso, perdidos. Não haveria nenhuma esperança e consolo para nós. Portanto, como diz o Dr. Heber Campos, “A força, a dependência, a esperança e a coragem que a Igreja de Deus tiver nos dias futuros, dependerá de como vemos e aplicamos a doutrina da imutabilidade de Deus hoje. A nossa crença na imutabilidade de Deus determinará a continuação dos nossos filhos na fé.[…] O conceito correto que lhe passarmos os ajudará a viver alegremente na dependência de um Ser tão constante, estável e, portanto, absolutamente digno de confiança!”.